Wednesday, August 25, 2010

Ancestralidade

Já há algum tempo venho pensando nas linhas de ancestralidade, ou, colocado de forma mais simples, em como é interessante e engrandecedor pensar de quem viemos.

Estou falando da terceira geração: nossos avós.

Em julho, minha Voca (mãe da mãe) veio do Ceará para passar o mês comigo. E sua presença me fez um bem danado. Além do amor de vó, a identificação que eu sentia ao analisar seus traços me fazia vibrar. São delas os olhos puxados que herdei- nada de japonês. A história que a gente gosta de imaginar é que talvez tenha sido uma herança dos portugueses que andaram por Macau. Mas escutar suas histórias e ganhar novas perspectivas em como nossa família foi afetiva e socialmente construída é o melhor de tudo. Ao entender como a mãe criou a mãe, minha comprensão e admiração pelas duas só cresce.

Hoje descobri conexões com outra linha de vida que me gerou. Meu Vovô (pai do pai). Sua morte fez com que eu me desse conta de alguns vestígios dele em mim. Meu espírito aventureiro, de querer viajar e conhecer o mundão, e de busca pela liberdade, foi passado dele para meu pai, e de meu pai para mim. Quando viajava, não tinha pressa em chegar. Ia parando nos lugares para conhecer e contemplar o que houvesse por lá. Era de natureza muito contemplativa. Amava a lua cheia e os banhos de mar (herdei dele esse gosto). Eu não tive muita convivência com o Vovô. Meus irmão e primos tiveram mais. Me lembro bem dele de calção azul com metade da bunda para fora aguando as plantas no jardim ou voltando da feira dos passarinhos. E o Vovô gostava muito de agradar (como eu gosto). Para a Clarinha ele fazia uma caranguejada. Saía cedo para comprar cordas e mais cordas de caranguejo e depois, sentava do meu lado para me dar a parte mais desejada do bicho: a "patona". Era assim com todos e cada um de nós.
E na mais bela noite de lua cheia, ele partiu.
Foi-se de uma vida que no fim foi de sofrimento e aprisionamento (o fim para ele).
Disseram que tinha um semblante de paz. Imagino mesmo. Eu não pude estar lá.
Como um passarinho lindo (tão lindo que era) cantando um bolero, parte agora. Com serenidade dos que sabem que chegou a hora (acho que ele sabia).
Fica o sangue, as histórias e a lição. Ficamos- frutos que ele plantou e tão bem regou.
Obrigada, Vovô, porque as lágrimas que só agora consigo derramar são de agradecimento. Obrigada por ter deixado um poquinho de você em cada um de nós.
As saudades virão ... e passarão- a cada banho de mar, contemplar da lua cheia e estrada nova diante de nós.

p.s: e meu narizinho....só pode ser dele!

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